Pais e Filhos: Desvendando o Papel Parental em Comportamentos Disruptivos e Ansiedade Infantil


A jornada da parentalidade é repleta de desafios e recompensas, e um dos maiores é saber como apoiar o desenvolvimento emocional e comportamental dos nossos filhos. Quando surgem comportamentos disruptivos ou sinais de ansiedade, a busca por soluções eficazes se torna uma prioridade. Mas qual é, de fato, o papel dos pais nessas intervenções? A ciência tem explorado essa questão há décadas, e o que descobrimos é fascinante: a forma como os pais são envolvidos no tratamento de problemas de comportamento difere significativamente da abordagem para a ansiedade infantil, embora essas estratégias estejam começando a convergir. Este artigo mergulha nas descobertas mais recentes para desvendar o que a pesquisa nos diz sobre a participação parental e como ela pode ser a chave para o bem-estar dos nossos pequenos.

O Legado das Intervenções: Uma História de Dois Caminhos

A história das intervenções comportamentais com crianças é marcada por duas trajetórias distintas. No século passado, a abordagem para comportamentos disruptivos – como a oposição, a não conformidade e a agressão – revolucionou o campo da psicologia infantil. Pioneiros como Boardman (1962) já descreviam métodos inovadores que ensinavam aos pais princípios de aprendizagem para modificar o comportamento dos filhos. Essa linha de pesquisa rapidamente estabeleceu os pais como o foco central da intervenção, transformando-os em “co-terapeutas” que aplicavam programas comportamentais no ambiente doméstico. O treinamento parental comportamental, como ficou conhecido, tornou-se a estratégia líder para lidar com esses desafios, com o objetivo claro de reduzir comportamentos negativos e coercitivos dos pais e aumentar os positivos (FOREHAND et al., 2013).

Em contraste, as intervenções para a ansiedade infantil seguiram um caminho diferente. Elas emergiram mais tarde, na década de 1990, e inicialmente se concentraram em estratégias cognitivo-comportamentais aplicadas diretamente à criança (KENDALL, 1994). O papel dos pais, embora reconhecido, era mais variado e menos proeminente. A ideia era que a criança, com suas habilidades cognitivas, pudesse aprender a gerenciar sua própria ansiedade. No entanto, com o tempo, a pesquisa começou a explorar a inclusão dos pais, especialmente em crianças mais jovens, onde o envolvimento parental se mostrou crucial.

Parentalidade no Desenvolvimento: Uma Diferença Fundamental

A influência parental no desenvolvimento de problemas comportamentais e emocionais é inegável, mas a natureza dessa influência varia. Para os comportamentos disruptivos, a perspectiva dominante aponta para o modelo de “início precoce”, onde o papel dos pais é central. A pesquisa sugere que os pais podem se envolver em um “processo coercitivo” com a criança, onde interações negativas se reforçam mutuamente, contribuindo para a escalada dos problemas (PATTERSON, 1982). A intervenção, nesse caso, visa quebrar esse ciclo, ensinando aos pais novas formas de interação e disciplina.

Já para a ansiedade infantil, o papel dos pais, embora importante, não é o foco central da maioria dos modelos de desenvolvimento. Modelos que dão mais ênfase aos pais, como os estudados por Dadds, Heard e Rapee (1992), consideram que a própria ansiedade dos pais, seus estilos de enfrentamento e comportamentos que podem aumentar a ansiedade da criança (como superproteção ou controle excessivo) contribuem para a trajetória do problema. No entanto, a intervenção direta na parentalidade não era, historicamente, a primeira linha de tratamento, como nos casos de comportamentos disruptivos.

Convergência e Papéis Parentais: O Que Funciona?

A boa notícia é que essas duas trajetórias estão convergindo. O tratamento eficaz de crianças com transtornos de comportamento disruptivo tem se beneficiado enormemente do envolvimento parental, e agora também inclui trabalho direto com a criança, especialmente à medida que ela cresce. Da mesma forma, o tratamento da ansiedade infantil, que era predominantemente focado na criança, está cada vez mais incorporando a parentalidade, principalmente para crianças mais novas.

No tratamento de comportamentos disruptivos, o papel dos pais é bem estabelecido: reduzir o comportamento coercitivo e aumentar o comportamento positivo. Isso inclui estratégias como aumentar a atenção para comportamentos apropriados, estabelecer limites consistentes e usar o “time-out” de forma eficaz.

Para a ansiedade infantil, os pais podem assumir papéis mais variados:

  • Consultores: Fornecendo informações sobre o comportamento da criança.
  • Colaboradores: Ajudando a criança a adquirir novas habilidades de enfrentamento.
  • Co-clientes: Aprendendo a gerenciar sua própria ansiedade, que pode influenciar a da criança.
  • Agentes de mudança: Modificando comportamentos parentais específicos, como a superproteção, para impactar a ansiedade da criança.

A pesquisa de Silverman et al. (1999a) e outros estudos têm explorado essa diversidade de papéis, mostrando que, embora a inclusão dos pais seja eficaz em comparação com grupos de controle, uma intervenção combinada (pais + criança) nem sempre é mais eficaz do que uma intervenção focada apenas na criança a curto prazo. No entanto, há indícios de que o envolvimento parental pode ser crucial para a manutenção dos ganhos a longo prazo.

O Futuro das Intervenções: Medindo o Impacto Real

Uma das maiores lacunas na pesquisa sobre ansiedade infantil é a falta de medição dos comportamentos parentais durante as intervenções. Enquanto nos estudos de comportamentos disruptivos é padrão avaliar como os comportamentos dos pais mudam, nos estudos de ansiedade isso raramente acontece (FOREHAND et al., 2013). Isso dificulta a compreensão de como a mudança na parentalidade realmente contribui para a melhora da criança.

Para o futuro, a pesquisa aponta para a necessidade de:

  • Medir comportamentos parentais específicos: Entender quais ações dos pais (como elogiar, ignorar, estabelecer limites ou conceder autonomia) são mais eficazes.
  • Explorar diferentes papéis parentais: Descobrir quais combinações de papéis (consultor, colaborador, co-cliente, agente de mudança) otimizam os resultados.
  • Coletar dados de longo prazo: Acompanhar as famílias por mais tempo para verificar a sustentabilidade dos resultados e o impacto da parentalidade na manutenção dos ganhos.
  • Considerar moderadores: Entender para quem e sob quais condições as intervenções funcionam melhor, levando em conta fatores como a ansiedade dos próprios pais, o gênero da criança, a gravidade do problema e o contexto sociocultural.
  • Abordar comorbidades: Desenvolver intervenções que tratem simultaneamente comportamentos disruptivos e ansiedade, problemas que frequentemente coexistem.

A compreensão aprofundada do papel dos pais nas intervenções comportamentais para crianças é um campo em constante evolução. Ao reconhecer as nuances e as diferenças entre o tratamento de comportamentos disruptivos e ansiedade, podemos oferecer um suporte mais eficaz e personalizado para cada família.

Perguntas ao Leitor:

  1. Você já percebeu como sua forma de interagir com seu filho pode influenciar diretamente seus comportamentos ou níveis de ansiedade? Quais estratégias você tem utilizado?
  2. Pensando nas intervenções para ansiedade, como você imagina que o papel de “co-cliente” (onde os pais também trabalham sua própria ansiedade) poderia beneficiar seu filho?
  3. Diante das informações sobre a importância do acompanhamento a longo prazo, que tipo de apoio você buscaria para manter os ganhos de uma intervenção para seu filho?

Advertência

Este conteúdo é meramente informativo e não substitui a consulta a um profissional de saúde qualificado. Em caso de dúvidas ou necessidade de avaliação, procure um psiquiatra infantil ou outro especialista adequado.

Referências

BOARDMAN, W. K. Rusty: A brief behavior disorder. Journal of Consulting Psychology, v. 26, n. 3, p. 293–297, 1962.

Dadds, M. R.; Heard, P. M.; Rapee, R. M. The role of family intervention in the treatment of child anxiety disorders: Some preliminary findings. Behavior Change, v. 9, n. 3, p. 171–177, 1992.

FOREHAND, R. et al. Behavioral Parenting Interventions for Child Disruptive Behaviors and Anxiety: What’s Different and What’s the Same. Clin Psychol Rev., v. 33, n. 1, p. 133–145, 2013.

KENDALL, P. C. Treating a disorder in children: Results of a randomized clinical trial. Journal of Consulting and Clinical Psychology, v. 62, n. 1, p. 100–110, 1994.

PATTERSON, G. R. Coercive family processes. Eugene, OR: Castalia, 1982.

SILVERMAN, W. K. et al. Treating anxiety disorders in children with group cognitive-behavioral therapy: A randomized clinical trial. Journal of Consulting and Clinical Psychology, v. 67, n. 6, p. 995–1003, 1999a.